Esqueceu de dar block no palco
Há pelo menos uma década, pesquiso festivais brasileiros de música. Mesmo partindo da perspectiva de gênero e diversidade, tornou-se cada vez mais impossível dissociar da análise quem financia esses palcos.
Foi neste contexto que comecei a observar com mais atenção quem ocupa os espaços de patrocínio nos grandes festivais.
Experiências com apostas
Em 2024, escrevi um texto sobre a entrada das casas de apostas (bets) nos ambientes da música ao vivo por meio da Rock World, que levaria pela segunda vez, o patrocínio de uma casa de apostas para as próximas edições do Rock in Rio, The Town e Lollapalooza.
Para ser mais precisa, a Superbet foi a primeira a entrar em um projeto da Rock World (a segunda foi a BetNacional). Na época, a diretora de marketing, Patrícia Prates, comentou que a empresa já possuía experiência no futebol e que a busca era pela expansão para o segmento musical, que compartilharia valores semelhante aos esportes em geral.

Isso não começou agora
Essa aproximação entre música e casas de apostas não era exatamente uma novidade. Antes de a Rock World abrir suas cotas para este segmento de patrocinadores, em 2022, a Betano já havia patrocinado e "emprestado" seu nome ao evento Village (rebatizado naquele ano para Village Betano). A BetNacional já aparecia na Tardezinha, do Thiaguinho, e em eventos do Numanice e o Navio Numanice, da cantora Ludmilla.
A Esportes da Sorte, em 2023, já estava presente em festivais de forró e, no ano passado, foi patrocinadora oficial do Galo da Madrugada, o maior bloco carnavalesco do mundo, realizado no Recife. Segundo apuração da Agência Pública, os valores desses patrocínios não foram divulgados oficialmente.

Já a Bet7K, também no ano passado, foi uma das três principais patrocinadoras da Festa Junina de Campina Grande, com estande próprio, camarote e ações massivas de marketing.

Super Festivais da Bet
Neste ano, quem patrocina o evento Village é a Superbet (que agora passou a se chamar Village Superbet). Além disso, há o Arena Brasileira, uma "versão paulistana" que ocupa o Parque Ibirapuera durante a Copa do Mundo. Em São Paulo, a Superbet aparece como patrocinadora master e marca que apresenta toda a iniciativa.
Anitta, Caetano Veloso, Ludmilla, Baco Exu do Blues, BaianaSystem, Silva, Marina Sena, Banda Eva e outros nomes do mainstream brasileiro aparecem nas programações dos dois eventos.
Essa associação entre grandes nomes da música e marcas de apostas, no entanto, não ocorre em um vácuo. Ela se dá em meio a uma escalada da discussão sobre o impacto social e psicológico das apostas online no país.


Uma questão de saúde pública
Se você mora no Brasil, sabe que casas de apostas e cassinos online deixaram de ser apenas uma "publi" de influenciador e se tornaram uma questão de saúde pública. Dados cada vez mais consistentes documentam e revelam os impactos psicológicos e financeiros causados a milhares de pessoas. Diante disso, surge um esforço crescente do Estado e de diferentes instituições para enfrentar esse cenário, e o debate sobre uma regulamentação mais rígida das bets, que passa pela proibição da publicidade, segue acalorado.
Neste momento, por exemplo, enquanto acompanhamos uma Copa do Mundo, temos algo sem precedentes no Brasil: um canal do YouTube com mais de 35 milhões de inscritos, a CazéTV, transmitindo todos os jogos e divulgando massivamente plataformas de apostas - assim como praticamente todos os demais veículos esportivos.
Até aí, nenhuma novidade. A novidade está nos comentaristas e narradores oferecendo dicas, com verniz de análise especializada, sobre qual seria a melhor aposta a ser realizada (odd). O questionamento que sempre volta em casos como este gira em torno do tamanho da responsabilidade e de quem a assume.
Uma questão estrutural
A presença exaustiva das casas de apostas nos setores do entretenimento e esportivo não é por acaso. Ela revela uma questão estrutural: a indústria cultural brasileira ainda possui brechas que tornam as 'bets' as principais financiadoras de grandes eventos, ocupando o vácuo de políticas públicas mais robustas. É um cenário que lembra o que ocorre com a cerveja, que por uma questão legislativa (Lei 9.294), goza de liberdades publicitárias que outros produtos nocivos não têm. O lucro, aqui, acaba ditando a regra e dificultando restrições mais rígidas.
Bebida alcoólica mais consumida do país não faz parte de legislação restringindo propaganda; para especialistas, isso contribui para aumento de consumo nocivo, especialmente entre jovens. (...) A Lei 9.294, sancionada em 1996, estabelece que uma bebida alcoólica possui mais de 13 graus Gay-Lussac (°GL), enquanto a cerveja normalmente possui menos de 5%.
Atentos e fortes?
Transpondo essa lógica para os festivais, a reflexão sobre responsabilidade ganha contornos mais complexos. Há algumas semanas, Anitta, Baco Exu do Blues, Caetano Veloso e outros nomes participaram da campanha "Block no Tigrinho", idealizada pela 342 Artes. No entanto, esses mesmos nomes estão nas programações dos eventos patrocinados pela Superbet.
Meu interesse nesta discussão não é transformar artistas em vilões, tenham eles lastro de autonomia no mercado musical ou não - e se você é do mercado, sabe que existe quem pode dizer não e quem não pode.
Até porque habitar o sistema econômico atual sem conviver com contradições é praticamente impossível. Mas isso não significa que devamos excluir os artistas do debate sobre responsabilidade.

No caso específico da Superbet, se olharmos atentamente para os lineups desses eventos, veremos que a quase totalidade desses nomes não teria seus orçamentos comprometidos caso decidisse dizer não.
E é justamente aí que mora a reflexão que me interessa: quando um artista participa de um festival cuja marca, nome e comunicação giram em torno de uma casa de apostas, ele está apenas realizando um show ou também ajuda a legitimar e promover essa empresa?


